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Maggie is back!

A minha companheira. Sempre meiga e disponível.

Somos fãs do Carnaval! Todos os anos pensamos cuidadosamente sobre os pormenores e vivemo-lo com entusiasmo! No entanto, eu já teria feito uma viragem à pirata, vampiro, chita ou outro animal mais exótico. Para a babe é mais difícil…ficámos pela Dama!

Estou a aproveitar enquanto ainda consegue esbanjar o seu Amor! São frases que nunca esquecemos e a que nos agarramos nas “horas” mais negras.

Terreno fechado e abandonado no Ribatejo! Um regresso à infância…

Há dois anos resolvi mudar a minha vida por completo e mudar-me para o campo! Na conjugação de interesses familiares e profissionais, elegi a região da minha infância: o Ribatejo!

Não foi por acaso que o 1º post deste blog foi um texto que escrevi em 2010 onde frisava o meu amor pela região e a necessidade que tinha da cidade. Hoje já não penso assim.

O Ribatejo trouxe-me um vida familiar plena, os cavalos, a qualidade de vida e tempo…para levar a cabo os meus projectos profissionais.

RESPECT!

Terra de Salgueiros. O meu Ribatejo!

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Não há muito tempo atrás eu dizia que tinha razões, e muitas, para amar, pois então este é o meu humilde tributo a uma dessas razões: o Ribatejo, a terra dos Salgueiros. Terra onde a minha mãe nasceu e que cedo fez parte da minha infância e das minhas melhores recordações. Sou uma mulher da cidade, de prédios, de ruas com trânsito e muitas pessoas, mas sobretudo eu sou uma mulher da minha querida e amada Lisboa, porém sem equívocos tenho que dizer também que o Ribatejo tem um lugar especial no meu coração, nas profundezas da minha pessoa.

O Ribatejo é um lugar frio, de muito nevoeiro no Inverno e de muito calor e pouca humidade no Verão, é a terra dos campinos, dos touros e dos cavalos, é o berço do Saramago, o poiso dos homens com mau feitio, dos velhotes que se cumprimentam com murros nos ombros, das mulheres de “barba rija”, dos casais que passeiam separados por um metro de distância, das cachopas e cachopitas, das hortas e hortinhas, das adegas cooperativas, enfim é um lugar rude, de terra batida, poeira e gente com pouco sentido de humor e muito rancor.

Eu sei que assim é e hoje compreendo que jamais poderia viver sem esta gente, gentinha e gentalha, sem esta simplicidade com que se olha a vida e o dia seguinte, sem a sirene das fábricas ao meio dia, sem o dramatismo tão preenchido de cor e paixão, sem o calor tórrido que faz “arder canas ao sol”, sem a simpatia trabalhada, porém inata, sem a desconfiança instalada, sem a capacidade de fazer conversa circunstancial, sem as viúvas vestidas de preto ou as mulheres casadas de xaile, sem o olhar clínico com que se observam os foragidos e o ódio estimado aos franceses que por cá andaram no século XVIII.

Aprendi que amo a essência da “porta aberta”, do prazer de comer e de beber, de percorrer as capelinhas todas nas festas anuais, das procissões nocturnas envolvidas pelo choro das beatas e o cochicho casual, dos homens que tocam nas Bandas Filarmónicas e que assobiam quando estão felizes, da caça ao pardal, dos cães vadios, da caça aos gambozinos, da loiça de porcelana da fábrica de Sacavém já esbatida, do roteiro disciplinado da sagrada família, do bacalhau com batatas no Natal, dos tractores com tomate que criam longas bichas na estrada nacional, das velhinhas à beira da estrada a vender melão e laranjas e em especial dos primeiros beijos quentes que troquei nas longas noites de verão.

 E mais que isto tudo, eu amo os longos caminhos alinhados com choupos que dançam em sintonia ao som do vento quente em fim de tarde, as cegonhas que já não emigram porque também elas gostam destas “bandas”, as chuvadas em Setembro que deixam na pele o odor a terra molhada, os riachos preenchidos com Salgueiros e Canaviais, os cemitérios adornados com ciprestes e fotografias a preto e branco, os bandos de pássaros que fogem ao som das nossas palmas, a Lezíria de perder de vista, o Tejo que transborda e leva consigo a tristeza, as mulheres que caiam os seus muros ao fim de semana, a invasão de estrelas cintilantes que dão vida ao céu escuro, os velórios em casa e ainda mais as Quintas dos falidos Comendadores. Sim, eu amo tudo isto e com certeza mais ainda.

Se isto não bastar, eu admito a minha culpa quando contemplo os grandes louceiros de madeira “mossiça”, as lareiras cheias de cavacas e pinhas, as Amoras doces e brancas que se apanham em Janeiro, as Ameixas vermelhas e suculentas, os “Esses” com cereja, o Arroz Doce, as línguas de gato que o meu avô me comprava, a Aletria, os Coscorões, os Pastéis de massa tenra, as Migas com Bacalhau, as rosas sem pé e as gargalhadas de quem o faz espontaneamente, o falar alto de quem reclama até do que é positivo e cuja insatisfação permanente é um caso de ADN.

Lisboa é a minha cidade, o meu lugar de nascença, mas Almeida Garrett não podia estar mais errado e não percebeu que o Ribatejo não nasceu para ser o epíteto do Romantismo, mas antes das brigas que duram uma vida, dos apelidos singulares, judeus e espanhóis, das famílias que disputam coisas pequenas, das mulheres de vários homens, das pessoas que gostam de nós por causa de quem somos netos, das associações que se guerreiam por várias gerações, das avós que são um misto de tirania com ternura, das vizinhas que falam através dos quintais e sem dúvida do amor incondicional de quem se sente em casa no meio deste caos.

É no Ribatejo que eu encontro a mais pura das virtudes humanas: Amar sem qualquer explicação e despojada de condição.

Maggie (Primavera, 2010)